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Vida de mãe
Antenada, prática, trabalhadora, a mulher que tem filhos nos dias de hoje não se aperta.
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Por Patrícia Cerqueira Revista Crescer - Maio de 2003
'Os filhos fazem a gente ser mais responsável. Ficamos em segundo plano na sobrevivência. Tiramos da nossa boca para dar a eles. Quando algo foge do nosso controle e percebemos que eles estão em risco, o mundo desaba. Os filhos nos deixam mais vigilantes.' Andrea Gribel, mãe de André e Mariana.
O retrato da mãe de hoje é a imagem de uma mulher divertida, antenada e prática que olha com bom humor a agenda cheia de compromissos. Ela quer ter o melhor de seus dois mundos: o lar e a rua. Estuda, trabalha, se liga em novidades tecnológicas, vai para a academia. Não dispensa o cabeleireiro, se equilibra no salto plataforma, bate-papo ao telefone com as amigas, recicla lixo, tenta fazer dieta e carrega na bolsa o celular, o palm-top, a chupeta e uma caixa de giz de cera. Ao mesmo tempo, entende de pedagogia, psicologia infantil, dinossauros, gírias, futebol, internet e videogame. Conhece os contos de fada, chora em festinhas da escola. E tem a sensação de nunca conseguir completar um raciocínio quando os filhos estão por perto. Mas quer ajuda para cuidar das crianças porque está exausta com a jornada dupla, tripla. Requisita o pai. E, se percebe que do parceiro nada virá, não se aperta: busca o apoio de babás, avós, empregadas.
A maioria das mães de hoje não tem paciência para os afazeres domésticos, porém se diverte na seção de produtos de limpeza dos supermercados lendo rótulos e identificando aquele 'limpa-a-jato', com cheirinho de 'sei-lá-o-quê', que promete tirar o limo do piso do banheiro (que ela só toma conhecimento quando entra no boxe para tomar banho). A mãe sabe que nunca vai parar de trabalhar, de se informar, de se interessar pelas novidades do mundo moderno. 'Somos mães com problemas e alegrias muito parecidos com as de antigamente. Nossos interesses são variados e não se resumem aos filhos. Somos de uma geração que não quer perder conquistas. Tentamos mostrar uma nova mãe, fora do estereótipo da perfeita, que, aliás. não existe. Antes de tudo, somos seres humanos que têm sono, raiva, desejo e questionamentos', diz a publicitária e professora universitária Laura Guimarães, 33 anos, mãe de Nina, 7, e Gabriela, 4. 'Ver uma nova geração crescer me instiga em continuar ligada no que está rolando no mundo, nas novas tendências de comportamento', completa a publicitária mineira Juliana Sampaio, 32 anos, mãe de Alice, 2. Laura e Juliana criaram um diário virtual na internet, o Mothern (junção de mother com modern, http://mothern.blogspot.com). 'A idéia era ter um espaço para relatar nossas experiências, de mulheres modernas, ativas, antenadas, com realismo e bom humor', conta Juliana. Criaram uma comunidade de mães, como nos tempos de nossas avós, só que pelo caminho virtual e com direito a palavrões, histórias engraçadas e dicas legais.
Internet e celular
'Vibro diariamente, várias vezes ao dia, com minhas filhas com as mesmas besteiras que milhões de mães vibram. Claro que todos esses clichês a primeira frase ou a primeira andada são maravilhosos e devem ser aproveitados sem culpa. Ao mesmo tempo que vibro, temo que elas sofram desnecessariamente, repetindo alguns erros que cometi ou passando por algumas situações traumatizantes pelas quais passei.' Fernanda Young, mãe de Cecilia Madonna e Estela
A internet e o telefone celular funcionam como os braços direito e esquerdo da mãe de hoje. Na hora do aperto (sim, porque ela até gosta de ir ao supermercado de vez em quando), o lanche dos filhos chega em casa depois que o pedido é feito pelo computador, em geral, no meio da noite, quando as crianças dormem feito anjinhos. Há até aquelas que conseguem ver os filhos na escola pela internet. Dessa forma, diminuem a distância - e a saudade. 'Assisto a aula de judô dos meus filhos pela internet', conta Andrea Grandberg, 37 anos, gerente de recursos humanos e mãe de Leonardo, 5, e Enzo, 1 ano e 4 meses.
Ela chega a trabalhar dez horas por dia, mas pode ver imagens ao vivo das crianças pelo site da escola. O celular fica ligado 24 horas e as mães não conseguem imaginar como seria a vida sem ele. Trabalham, vão ao shopping, almoçam fora, com a tranqüilidade de saber que serão localizadas no exato momento em que os filhos precisarem. E fica difícil mesmo imaginar como era a gravidez naquela era paleolítica em que não existia o ultra-som. Como alguém pôde ser mãe sem ter tido a oportunidade de derramar lágrimas emocionadas ao ver o narizinho do bebê ainda dentro da barriga? E o microondas? Isso para não falar da papinha pronta, de sabores variados e indicada para diversas fases de crescimento, que está sempre naquela bolsa de passeio. 'Levava os potes de papinha em festas de aniversário, sem pudor. Facilitavam tanto a vida', diz a atriz Cristiana Piratininga Figueiredo, 35 anos, e mãezona de Eduardo, 9, e Felipe, 6. A fralda descartável, uma tremenda invenção da mãe norte-americana Marion Donovan ainda em 1947, por menos reciclável que seja, está em 100% das casas.
Culpa e trabalho
'Todas as mães que estão parindo vivem esse questionamento: tentar encaixar a maternidade na vida e não o inverso. Ter filhos é algo que não nos reduz, mas, sim, nos completa e acrescenta. Desde que Alice nasceu, passei a ter medo de morrer cedo, parei de pensar em mim em primeiro lugar, não passo um dia sem escutar choro (nem que seja daqueles bem fingidos, de pura chantagem emocional). Também não passo um dia sem dar um sorriso. Aprendi a fazer várias coisas com só um braço livre, como vestir uma calça jeans. Passei a voltar para casa mais cedo. Vi que é possível amar alguém ainda mais do que amo o pai dela. Entendi o que é instinto.' Juliana Sampaio, mãe de Alice.
Vez por outra, mesmo com essa imensa lista de facilidades do mundo moderno, a mãe de hoje carrega a culpa de quem foi educada para ser independente e boa profissional, mas não recebeu aulas de preparação para a maternidade, como suas avós. Está sobrecarregada. Muitas já pensaram um dia em trocar o escritório pela casa, para curtir as crianças. 'Percebo hoje que todas as mulheres que trabalham carregam uma dívida. Estão sempre achando que precisariam estar em horário integral com o filho', diz a psicanalista Maria Rita Kehl. Pensar assim, segundo ela, é um equívoco. A mãe não pode buscar no filho sua única fonte de realização. Não é saudável depositar nele a esperança de felicidade. A mãe que cria outros laços além do filho acaba, no fim das contas, sendo mais leve. Andrea, por exemplo, sempre arranja disposição para, depois da longa jornada, brincar de carrinho, futebol, ver televisão com os filhos. 'Não costumo me sentir 'culpada'. Porém tenho meus momentos de insegurança, se o jeito que estou educando é o melhor ou não, se os limites que estou pondo são eficazes, se está tudo funcionando', diz. Andrea não está sozinha. É uma dúvida comum. A solução para resolver os impasses com as crianças é o diálogo. As mães ficam tão chateadas quando os filhos testam seus limites. 'Me angustia quando, às vezes, meus filhos só me obedecem se for na base da ameaça. Não queria que fosse assim', lamenta Cristiana.
A mãe que quer diálogo também levanta suas bandeiras. Guerra, reciclagem de lixo, eleições, campanhas contra a fome são temas que fazem parte do dia-a-dia dos lares, como método pedagógico para formar cidadãos mais conscientes. A atriz Maria Luisa Mendonça, 32 anos, mãe de Júlia, 6, uniu interesses pessoais - artes plásticas e reciclagem de lixo - para despertar, desde cedo, a atenção da menina para a sucata. 'Queria muito que ela gostasse de transformar objetos do cotidiano. Acho que consegui. Hoje, ela carrega tudo o que vê, sementes, penas, palito, canudo e leva para casa', diz. Desde que Júlia nasceu, Maria Luisa sente que nunca mais será uma pessoa sozinha. 'É ótimo sentir-se acompanhada. E filho é isso, é companhia, independentemente se você está longe ou perto, casada ou solteira', diz. 'Tem quem ache que criança e carreira não combinam. Ela só me potencializou, deu mais gás. Foi com a maternidade que conheci uma nova forma de amor: o incondicional. Que amor, senão esse, que nos faz levantar exaustas de madrugada da cama para amamentar, acalmar pesadelos?', pergunta.
Tão diferentes, tão semelhantes. Quando questionadas sobre como a maternidade as atinge, todas recorrem a antigos clichês: fica-se mais generosa, mais humana, mais corajosa. 'É, definitivamente, a maior aventura humana', define a escritora Fernanda Young, mãe das gêmeas Cecília Madonna e Estela, 2 anos e 9 meses. Dizem que muda tudo na vida delas. A cantora pop Madonna, mãe moderníssima, que o diga. Surpreendeu o mundo ao matricular, em 1998, sua filha, Lourdes Maria, no rígido Cheltenham Ladies College, uma escola feminina católica ultraconservadora, fundada em 1853, em Londres.
'A maternidade me ensinou a lidar com situações que escapam do nosso controle, como ter de adivinhar o que eles estão sentindo. Ou então ser ágil e bem-humorada quando se está toda arrumada pra sair e eles vomitam na roupa nova, fazem manha no shopping cheio de gente ou é chamada na escola porque eles batem nos colegas. Em casa são uns anjos. Haja criatividade e senso de improviso!!!' Andrea Grandberg, mãe de Leornardo e Enzo.
O sentimento genuíno de plenitude e bondade que a maternidade provoca é visto e ouvido há séculos. 'Temos inúmeros exemplos de carinho, devoção, amor de mães por seus filhos. As cantigas de ninar, os acalantos, os cuidados médicos, enfim, uma rede de gestos que garantia a sobrevivência de pequenas vidas', diz a historiadora Mary Del Priore. A expressão 'amor materno', segundo ela, aparece em documentos dos séculos 17 e 18, como testamentos, por exemplo, em que as mães se despedem de seus filhos expressando seus sentimentos. 'Ter filho é tão maluco que, ao mesmo tempo que sua existência passa a ser fundamental, você deixa de se achar importante. Há um lado bom, pois livra as pessoas de seu egocentrismo inato, e um lado ruim, pois você nunca mais será tão livre quanto foi um dia', define Fernanda Young. Apesar do bom humor, a maternidade vive um paradoxo. 'A mãe é incentivada a buscar interesses próprios, e também pressionada a ser o elemento tranqüilizador da casa, ter o sorriso no momento certo, ser a responsável pelo lar, doce lar, e não por uma república', afirma o psicanalista Contardo Calligaris. 'É, definitivamente, um ato heróico conciliar as duas expectativas', aplaude ele.
De certa maneira, as mulheres têm conseguido o equilíbrio porque são mais cabeça-frescas. 'Adoro ser o porto seguro, o elemento tranqüilizador para minha filha. Acho que é só deixar claro o quanto ela é amada e importante em casa e que, bem ou mal-humorada, eu estou disponível. Quero tentar ser o lugar para onde ela pode voltar, uma referência', diz Juliana Sampaio, que garante não sentir essa pressão. Sua companheira mothern tem opinião contrária. 'Às vezes, me estresso por ter de ser a referência. Mas, no fim, acabo desencanando e tento ser feliz mesmo com a casa desarrumada e a vida imperfeita', confessa Laura Guimarães. O 'dane-se' só não funciona quando junta TPM, reunião na escola, trabalho, filho doente, supermercado para fazer e marido em crise de carência. 'Aí, parece que carrego o mundo nas costas', desabafa a engenheira química Adriana Gribel, 38 anos, mãe de André, 16, e Mariana, 11, e do enteado Renato, 17, que mora com ela e o pai dele, o engenheiro civil Eduardo Gribel.
Os pães
'A chegada das meninas me ajudou a pôr as coisas no lugar, a me conhecer, a ter prioridade. Elas não piraram minha cabeça. É uma delícia ser mãe. Mas passei a ter medo: do futuro do planeta, da violência, da degradação dos valores na cultura do consumo. Mas o que mais temo, acima de todas as coisas, é perder minhas filhas ou que algo ruim aconteça a elas. Nunca entendi esse amor incondicional, até tê-las.' Laura Guimarães, mãe de Nina, e Gabriela
Marido é um capítulo à parte na vida familiar de hoje. 'Não existe mais um educa, o outro trabalha', diz Lia Zanotta Machado, professora do departamento de Antropologia da Universidade de Brasília e do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher. Não é só a mãe que transmite valores, afetos. 'Acredito que cada vez mais os filhos sabem que ao chamar pelo pai terão como resposta colo, mamadeira, carinho, comida', diz a publicitária Juliana. Na casa de Andrea Grandberg, por exemplo, o marido, Vicente Cirillo, é chamado de pãe (pai+mãe). 'Trabalhamos a mesma quantidade de horas e ganhamos a mesma coisa, somos igualmente responsáveis pelas crianças, nas coisas chatas e nas legais', diz ela. Vicente vai às reuniões da escola, ajuda nas festinhas, dá banho, comida, troca fralda, põe pra dormir. O publicitário Luiz Celso Piratininga Figueiredo Jr. faz lição de casa com os filhos sempre que a mãe, Cristiana, precisa fazer comercial, ensaiar ou encenar uma peça de teatro.
Não se pode esquecer, também, da curva, cada vez mais crescente de mães sozinhas. Entre os homens, 6,2% criam os filhos sem a companheira. O índice entre o lado feminino chega a 18%. Dados do IBGE mostram que, em 1991, já eram 10,5% as casas comandadas por mulheres. No ano 2000, o índice pulou para 17,8%. 'Uma separação é sempre frustrante. A gente não casa pensando que vai dar errado. Quando tudo desmorona, você se pergunta: as minhas escolhas estavam erradas?', explica a engenheira Adriana, que se separou, depois de quase quatro anos de casamento do primeiro marido. O filho, André, tinha 3 anos. Mãe e filho passaram dois anos sozinhos. Quando percebeu que o namoro com Eduardo iria dar em casamento, disse ao menino que gostaria de ter nova família. Adriana e Eduardo estão juntos há 13 anos e têm uma filha, Mariana, de 11. O coração de Adriana apertou quando um dos dois filhos da primeira união de Eduardo decidiu morar com o pai. 'Depois de oito anos que estávamos casados, o Renato veio viver conosco. Eu já o conhecia, mas ele nos visitava só aos fins de semana. Fiquei com medo. Não sabia o que iria acontecer nem como lidar com ele. Foi uma situação delicada. Envolveu sentimentos de muitas pessoas', diz Adriana, que, sinceramente, dividiu a questão com o marido e o enteado. Renato mora com a família há quatro anos.
Espaço e criatividade
'Amo ser mãe, minha maior paixão são meus filhos. Não vejo renúncia nenhuma em se doar para duas pessoas. Já fui parar à meia-noite na porta de locadora por causa de Harry Potter. Chorei assistindo Peter Pan. Essas atitudes impensáveis, desmedidas, só são permitidas dentro da maternidade. Por isso, tenho prazer em ser mãe, porque não há pudor.' Cristiana Piratininga, mãe de Eduardo e Felipe.
Essa nova família, com filhos de vários casamentos, meio-irmãos, várias avós, tem suas peculiaridades. Fazer coisas simples, como bater-papo depois do jantar é um desafio. 'Com tantas tarefas e obrigações, parece que ficou difícil encontrar um lugar próprio para serem expressas regras e passadas tradições familiares', constata a psicanalista Dirce de Sá Freire Costa, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. As refeições costumavam ser o fórum ideal para essas medidas.
Hoje, é raro a família fazer duas refeições juntas. Compromissos de pais e filhos invadiram o horário nobre do café-da-manhã, almoço e jantar. As mães recorrem à criatividade. Uma vez por semana Cristiana, os filhos e o marido jantam fora. É o único dia que os quatro conseguem estar à mesa, pois o pai dificilmente chega a tempo para o jantar. Adriana escala montanha, faz rafting, mergulha com os dois filhos e o enteado. 'É uma ótima oportunidade para transmitir valores como solidariedade, respeito ao próximo. Além de observar como todos superam desafios, testo a responsabilidade deles', diz. 'Compartilhar com meus filhos experiências tão ricas e cheias de emoção e surpresas, nos aproxima.'
Violência urbana, seqüestro, envolvimento com drogas, gravidez na adolescência, acidente de carro, más influências - tudo isso deixa os corações desassossegados. 'Temo as amizades que podem levar ao envolvimento com drogas', diz Cristiana. 'Sempre peço aos meus filhos que tenham cuidado e carinho com as namoradas, que elas são muitos jovens para o sexo', completa Adriana. Diálogo, atenção e parceria com os filhos. Não há como ser de outra forma. Temos a obrigação de informar e orientar, sem pudores e preconceitos, de acordo com as demandas de cada idade. 'Não tenho interesse em contar nem esconder minhas experiências com drogas ou sexo das minhas filhas. Só não acho que tudo deve ser dito. Filho é filho, amigo é amigo', diz a publicitária Laura.
Maduras, bem resolvidas, essas mulheres estão tendo filhos cada vez mais tarde. Esticam a primeira gravidez para perto dos 30 anos e encaram a maternidade com a mesma desenvoltura com que planejam a vida e o trabalho. 'Nunca quis ter filho até o dia que quis. Menos de um mês depois, estava grávida. Antes de querer, ser mãe nunca foi algo que me assustou. Simplesmente não me interessava', descreve a escritora Fernanda Young. Simples assim. É claro que, depois, ela admite, a maternidade a surpreendeu bastante. Mas pergunte para qualquer mãe (de 80, 40 ou 30 anos) se elas abririam mão dessa experiência em troca de mais horas de sono, tempo para si mesmas, liberdade. A resposta, cara leitora, será não. Simples assim.
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