Mestiças, sim senhor!

Lucia Helena Corrêa - B2B Magazine - Julho de 2003


No país da exclusão digital, as virtuais puro-sangue reconsideram a opção, erguem lojas de tijolo e aderem até mesmo aos catálogos de papel. É isso ou permanecer longe dos mais de cem milhões de brasileiros, consumidores potenciais ainda fora da Internet

A briga ideológica e semântica entre empresas nascidas na Internet e as que se orgulham de serem forasteiras no mundo virtual está para acabar. A questão não se resume mais a ser ou não ser apenas uma empresa de tijolo e argamassa (brick and mortar), tão-somente pontocom (click ou pure play) ou, ainda, ao mesmo tempo, virtual e de tijolo, (click and brick). O que hoje se considera é a competência de exercitar cada um dos modelos.

Não é só isso. Por experiência própria ou de tanto assistir às tragédias que solaparam a vizinhança quando a “bolha” da Internet estourou, detonando projetos milionários, não importa o motivo, as empresas e, igualmente, as consultorias que as aconselham parecem ter aprendido com os erros do passado. A maioria age de maneira cautelosa quando se trata de definir o tipo de operação, entendendo que a questão é de competência.

“Finalmente, o mercado começa a compreender, a duras penas, que não há mais espaço para aventuras irresponsáveis e que a escolha de mergulhar ou não na Internet, com mais ou menos grau de profundidade, depende da natureza do negócio, do perfil dos clientes”, avalia Daniel Domeneghetti, diretor de estratégia da E-consulting (www.e-consultingcorp.com.br), consultoria especializada em economia digital.

Na opinião dele, não existem fórmulas universais. “Em plena era do comércio eletrônico, a Casas Bahia (www.casasbahia.com.br), por exemplo, sabendo que os clientes nem sequer dispõem de computador em casa, mantém site apenas para divulgação institucional, e não para venda de produtos. Isso se chama bom-senso”, aprova o diretor da E-consulting.

Mas, a despeito da atitude cautelosa das empresas, uma tendência é evidente: cresce o número de empresas híbridas (clicks and bricks), que utilizam, simultaneamente, telefone, fax, mala direta, Internet e tudo aquilo que cabe nesse conceito – das lojas virtuais ao e-mail marketing, passando pelos catálogos eletrônicos. “O comércio do futuro vai ser uma mistura do tradicional com o virtual. E quem operar nos dois mundos ganhará enorme vantagem competitiva, ao deixar que o consumidor escolha o canal de compra que mais o agradar”, projeta estudo do Gartner.

Na corrida, rumo ao modelo misto, é cada vez maior o número de marcas tradicionais a caírem na rede. Mas isso não é mais notícia. A novidade mesmo fica por conta daquelas que já estão vindo ao mundo metade click, metade brick, ou, ainda, as que tendo nascido exclusivamente pontocom começam a investir em operações que combinam recursos virtuais e convencionais. “Em outras palavras, estamos assistindo ao surgimento das ‘mestiças’, que, sobretudo no Brasil, onde a exclusão digital mantém milhões de pessoas fora da rede mundial, encontram um terreno fértil”, intervém o consultor Adalton Ozaki, da ADF Consulting (www.adf.com.br), cujo trabalho é orientar empresas na elaboração de modelos de negócio – virtuais ou convencionais.

Professor da Uniban (Universidade de Bandeirante de São Paulo), ligado à FEA (Faculdade de Economia e Administração), da Universidade de São Paulo, Ozaki apresenta, em outubro, a tese de doutorado na qual defende que dificilmente uma empresa poderá escolher ser apenas click ou apenas brick, embora reconheça que as que nasceram .com e se mostram competentes, como a Amazon (www.amazon.com), devem continuar fazendo sucesso.


“Quando falo de competência, quero dizer o seguinte: o custo operacional pode ser mais baixo na Internet, mas, em contrapartida, reter o cliente internauta sempre representará um desafio que só se pode vencer sendo muito eficiente”, explica o consultor, citando números do Boston Consulting Group, segundo os quais o custo de captação de clientes lojas físicas cai de 82 dólares, nas lojas físicas, para 31, nas virtuais.


Físicas, pero no mucho

Entre os modelos de negócios agora experimentados pelas virtuais de nascença não faltam os casos que se poderiam classificar como verdadeiramente esdrúxulos. O Submarino (www.submarino.com.br), por exemplo, em novembro do ano passado, criou quatro lojas em cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais. Mas, nelas, em vez de gôndolas com produtos, o consumidor encontra terminais que lhe permitem entrar na Internet e fazer compras. A idéia é ampliar a base de clientes, estendendo aos que não dispõem, em casa, de computador e nem de acesso à rede mundial, a oportunidade de participar da economia virtual, explicou, na época, o presidente da empresa no Brasil, Flávio Jansen.

A adesão aos expedientes convencionais não pára por aí. No começo deste mês, o Submarino anunciou que, daqui para frente, vai aproveitar todas as datas comemorativas para editar catálogos impressos. “Nosso propósito é dar ainda maior a visibilidade ao site e conquistar principalmente os consumidores que ainda não têm o hábito de fazer compras pela Internet”, explica o diretor comercial e de marketing, André Shinohara, que projeta, até o final deste ano, crescimento das vendas de até 5%.

O primeiro catálogo, do Dia das Mães e o segundo, do Dia dos Namorados, tiveram, cada um, tiragem de 120 mil exemplares. Em julho, chega ao mercado o terceiro, com 150 mil exemplares, oferecendo produtos de consumo certo na temporada de férias. Para o Dia dos Pais, o Submarino promete um outro com tiragem de 200 mil. A última edição de 2003 será lançada às vésperas do Natal – cerca de 400 mil exemplares.

Aberta em 1999, a maior loja virtual em operação no Brasil vende mais de 700 mil produtos distintos, num total aproximado de 40 mil itens, entre CDs, DVDs e VHS, livros, brinquedos, games, produtos de informática e telefonia, eletroeletrônicos e toda a chamada linha branca, câmeras fotográficas, filmadoras, produtos de hobby e lazer, utilidades domésticas, beleza e saúde, além de presentes finos. No ano passado, segundo Jansen, o faturamento engordou 70%, saltando de 76 milhões de reais, em 2001, para 130 milhões.

Ainda no mundo das originalmente pure play, a Max Blue (maxblue.com.br) é outra que entrou pela contramão da história, abrindo lojas físicas quando a regra é centralizar as operações na Internet, em nome da redução de custos. A consultoria financeira, que se ocupa de orientar investidores na escolha da melhor opção em termos de aplicação, montou na Avenida Faria Lima, um dos centros financeiros da capital paulista, a unidade onde as pessoas podem recorrer a analistas de negócios de carne e osso. Além disso, pelo sistema 0800 7030303, atende as que ainda preferem a comunicação via telefone.

O co-presidente do iG (www.ig.com.br) e vice-presidente de estratégia da Câmara de Comércio Eletrônico (www.camara-e.net), Matinas Suzuki, também considera irreversível a adoção de operações híbridas, segundo ele, capazes de trazer para a carteira de clientes pessoas ainda fora da Internet.

Suzuki acredita, porém, que o tipo de operação adotado pelo Submarino, embora interessante, traz um certo risco. “Quando cria lojas físicas apenas para suportar operações virtuais, no mínimo, a empresa fica dispensada de ter de manter estoques. Mas esse é um modelo operacional que só deve ser experimentado pelas virtuais que já têm marca forte no mercado. Do contrário, é jogar dinheiro fora”, diz o consultor.

Mas há, também, as marcas que já nascem assentadas nos dois pilares, definindo-se como click and brick. E vão indo muito bem, obrigado, garante Edson Bouer, diretor de negócios da Superbid (www.superbid.com.br), que, especializada em leilões de ativos, realiza sessões virtuais e presenciais.

A empresa, que navega no azul desde a criação, em novembro de 1999, fechou o balanço de 2002 com uma receita de cem milhões de reais, a maior parte referente à venda de equipamentos, sucatas, resíduos e excesso de inventário, oferecidos por grandes empresas dos diversos setores industriais.

No ano passado, quando fez parceria com a DoveBid (www.dovebid.com), a maior empresa de leilão on-line do mundo, a Superbid intermediou negócios para algumas das maiores corporações em operação no Brasil, tais como 3M (www.3m.com), Alunorte (www.alunorte.net), Comgás (www.comgas.com.br), Compaq/Hewlett-Packard (www.hp.com), Delphi (www.delphibrasil.com), IBM (www.ibm.com.br), Motorola (www.motorola.com), Natura (www.natura.net), Vale do Rio Doce (www.cvrd.com.br), Lucent (www.lucent.com.br) e Suzano (www.suzano.com.br), num universo de mais de 50 associadas por contrato.

“A proposta é aproveitar a atividade do mercado brasileiro, que tem potencial para movimentar mais de 40 bilhões de dólares. A operação híbrida, realizada nos ambientes físico e virtual devidamente integrados, aumenta o dinamismo do negócio”, argumenta Bouer.

Em 2002, o Superbid realizou o primeiro leilão eletrônico de venda de ativos feito pelo governo, superando todas as expectativas, comemora o gerente de suprimento, Theodoro Puppo de Almeida Júnior. A CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) (www.cptm.sp.gov.br), que esperava vender seus excedentes por 617 mil reais, acabou arrecadando 862 mil reais, o equivalente a 32 dos 36 lotes colocados em exposição. Em média, os negócios fechados renderam ágio de 52%.

Outra tendência clara, entre as pontocom que escolheram criar sites de tijolo, é encapsular a empresa virtual na marca tradicional, a exemplo do que sempre fez a Lojas Americanas (www.americanas.com.br). Isso, de certo modo, as livra de um fiasco, retoma Domeneghetti. O diretor da E-consulting explica que algumas empresas de tijolo criaram uma segunda, virtual, para operar exclusivamente na Internet, na tentativa de evitar que, no caso de um fracasso, a marca já conhecida e respeitada sofresse arranhões.

“A verdade que a maioria das virtuais a partir de operações convencionais, se deu certo, não conseguiu repetir o desempenho da empresa-mãe, o que acaba sendo um problema. O cliente não compra a operação; ele compra a marca e sabe que por trás da virtual incompetente esconde-se a marca que ele sempre respeitou. Isso é como dar um tipo no pé”, alerta o consultor.


Amazon rejeita o modelo misto

Puro-sangue, a Amazon pretende passar à história do e-commerce não apenas como mais bem-sucedida loja virtual do mundo – a única que deu 100% certo, segundo alguns analistas. Ao menos por enquanto, também quer ser apontada como empresa que, apesar do movimento na direção das operações híbridas, insistiu em ser apenas pontocom. Em recente entrevista, nos Estados Unidos, o diretor-executivo da maior loja virtual do mundo, Jeff Bezos, descartou mais uma vez a possibilidade de a empresa criar um braço de tijolo.

Bezos considerou, entretanto, “um dos muitos mitos que cercam a Internet” acreditar que o e-commerce vai acabar com as lojas de tijolo. Na opinião dele, as vendas no varejo pela web, daqui alguns anos, vão representar, no máximo, 10% do volume comercializado pelo conjunto das lojas virtuais e convencionais e não 50%, conforme projetaram os analistas de plantão, quando surgiu a Internet comercial, em 1995.


Números são animadores

Embora não no ritmo que talvez agradasse às pontocom, o uso da Internet enquanto plataforma de negócios não pára de crescer, inclusive no Brasil dos desconectados, revelam duas pesquisas divulgadas no começo deste mês. Uma, feita pelo Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública) (www.ibope.com.br, mostra que 40% dos usuários domésticos já fazem compras pela rede mundial. Outra, realizada pela Febraban (Federação Brasileira das Associações de Bancos) (www.febraban.com.br), revela que, das 15 milhões de correntistas, 8,3 milhões usam a Internet para fazer transações bancárias.


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